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Em alguma tarde cultural do começo do ano, encontro a antiquária Sylvia de Souza Aranha, que me confidencia que Vera Chaccur Chadad iria me convidar para escrever o texto de abertura do catálogo do Salão de Arte 2011. Em seguida, quase como uma ordem, me diz: "E faça o favor de aceitar, afinal, você é herdeiro de uma coleção importante. Faça as pessoas entenderem que não existe só arte contemporânea". Aquela conversa rápida me fez compreender, um pouco, a aflição por que passa todo um mercado importante, histórico, por conta da desinformação e da insegurança da nova leva de arquitetos e decoradores. E, também, por conta da ignorância de toda uma nova massa de compradores, que se espelham apenas no que vêm nas revistas e nas mostras de decoração, hoje totalmente homogeneizadas.
Eu adoro arte contemporânea, já vou avisando. Viajo milhares de quilômetros para conhecer um novo museu, para ver uma mostra. Compro arte contemporânea. Portanto, se vou defender as qualidades do antiquariado, é porque conheço bem os dois lados. Em primeiro lugar, compro só contemporâneos porque herdei móveis europeus do século XVIII muito elegantes, espelhos venezianos, lustres que vieram das casas de meus avós paternos em Milão e no Lago de Como. Tenho louças, Companhia das Índias, prataria, tapetes antigos. Tudo recebido. Fazem parte de minha história, e da história dos meus. Impossível me imaginar sem eles.
Além disso, cresci no meio da coleção dos meus pais, que antes de comprarem os modernos, começaram pelo mobiliário colonial, com ênfase nas cômodas e papeleiras, cadeiras e poltronas D. João V e Dom José. Este foi o cenário onde fui criado, que com o tempo foi sendo acrescido por pinturas e desenhos de Nery, Gomide, Segall, Tarsila, muitos Dis, muitíssimos Volpis, esculturas de Brecheret e Bruno Giorgi. Meu pai sempre teve um talento imenso para escolher arte da melhor qualidade, e bem misturá-la. Por conta disso, seus filhos e netos sabem distinguir o que é bom do que não é. Ou seja, um aprendizado que vem de berço, o que não acontece com a maioria dos que hoje criam os cenários alheios. Mas, esse gosto pelo antiquariado, pela mistura entre o antigo e o novo, pode muito bem ser aprendido. Grandes nomes do décor nacional, e mesmo do internacional, não nasceram em grandes casas. E hoje sabem absolutamente tudo o que é preciso para compor casas elegantes, que dêem ao proprietário a sensação de um lastro.
Se no Brasil o mercado sofre com a falta de informação, na Europa, Estados Unidos e Ásia, não é assim. Basta olhar os números da última Tefaf, a feira anual de artes e antiguidades de Maastrich, na Holanda, um incrível mostruário do que há de melhor em mobiliário e artes antigas e modernas. Foi vendida uma escultura de Miró por E$ 5 milhões, várias pinturas de mestres flamengos, nem de primeira linha, por valores entre os E$ 2 milhões e os E$ 3 milhões. Peças romanas, chinesas e japonesas alcançaram várias centenas de milhares de euros. A feira foi visitada, só nos primeiros dias, por mais de 30 mil pessoas. E nada menos que 125 jatos privados aterrissaram no aeroporto de Maastrich/Aachen. O grand monde deste mercado estava reunido, olhando e comprando, apesar da crise por que passou o primeiro mundo. Os compradores eram chineses, japoneses, russos, europeus, americanos. Brasileiros, também.
É esse movimento intenso e interessado que eu espero ver nesta 18ª edição do Salão de Artes, que por tradição pode ser definida como a Tefaf brasileira. 65 expositores, numa boa mescla entre antiquários e galerias, trazem o que de melhor nosso mercado tem a oferecer. Como ajudei, como assessor, Ariane Juliani a fazer o primeiro salão, no Jockey Club, e cobri, como jornalista do setor, todas as demais edições para jornal, site e tv, lembro bem de vendas de telas de Franz Post, de pinturas brasileiras muito importantes, de louças completas de Companhia das Índias, de mobiliário brasileiro catalogado, tudo alcançando preços recordes. Vera Chaccur Chadad, que dividiu com Ariane a organização de 10 salões, e está há seis edições sozinha no comando da feira, informa que as vendas de antiquariado estiveram em queda por alguns anos. Mas as edições mais recentes já apontaram para uma volta daqueles bons tempos, tendo em vista também o boom da construção civil, que ampliou imensamente o número de residências de alto padrão nas capitais e principais cidades brasileiras. Ou seja, o mercado está aquecido.
Agora, será preciso reforçar ao comprador o conceito de que uma foto de Vik Muniz ou uma pintura de Marina Saleme ficam esplêndidas sobre uma cômoda D. João V, e que imagens barrocas ou potiches chineses ficam ótimos sobre mesas de design. Que esta mistura dá distinção a uma residência e mostra a sofisticação do proprietário. Além disso, provar que um móvel que tem história, boa procedência, peça única, imune a modismos, é muitas vezes mais barato do que um móvel contemporâneo feito em série. Ou seja, além de tudo, é um ótimo negócio.
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